Existe um tipo de cansaço que não aparece no corpo.
A pessoa dorme bem.
Trabalha bem.
Entrega resultados.
Resolve problemas.
Sustenta a família.
Mantém a estabilidade.
Mas, em silêncio, sente algo estranho: como se estivesse sempre presente para tudo… menos para si.
E o curioso é que, muitas vezes, essa pessoa não está em crise. Pelo contrário. Construiu estabilidade financeira. Alcançou metas. Vive uma vida que, do lado de fora, parece organizada.
Mas por dentro existe uma pergunta que começa a ecoar:
“Em que momento eu deixei de me incluir na minha própria vida?”
Durante anos, a prioridade foi dar conta. Dar conta do trabalho. Da família. Das responsabilidades. Das expectativas. E, sim, isso exige competência. Exige força. Exige maturidade.
Mas ninguém ensina que, quando você vive muito tempo apenas respondendo ao que precisa ser feito, pode perder contato com quem você é quando não está fazendo nada.
A psicologia já descreveu algo parecido: quando a identidade fica excessivamente associada ao desempenho, a pessoa começa a se reconhecer mais pelo que entrega do que pelo que sente. A vida vira função. A função vira identidade.
E aí surge um desconforto difícil de nomear.
Não é fracasso.
Não é falta de conquista.
É falta de intimidade consigo.
Você sabe resolver conflitos externos.
Mas sabe reconhecer suas próprias incongruências?
Você sabe organizar patrimônio.
Mas sabe organizar seus desejos?
Talvez o que esteja incomodando não seja a vida que você construiu.
Talvez seja o fato de nunca ter parado para perguntar se ela também te inclui.
E aqui entra um ponto delicado: muita gente, ao perceber essa desconexão, sente que já é tarde demais para mudar.
“Agora não faz sentido mexer nisso.”
“Já construí tudo assim.”
“Já passei da idade de reinventar.”
Mas vamos pensar com calma: desde quando consciência tem prazo de validade?
O que realmente existe é medo de desorganizar estruturas que deram certo. E isso é compreensível. A estabilidade oferece segurança. O cérebro humano gosta do previsível. Mudança exige energia. Exige enfrentar partes de si que ficaram adormecidas.
Só que ignorar essa inquietação não elimina ela. Apenas a transforma em conformismo sofisticado.
E conformismo não é paz. É anestesia.
Existe uma diferença importante entre aceitar quem você é e desistir de se conhecer.
Aceitação saudável é reconhecer o momento atual sem violência interna.
Conformismo é usar a idade, a rotina ou o sucesso como justificativa para não se investigar.
Talvez a questão não seja mudar tudo.
Talvez seja começar a se incluir.
Se ninguém mais precisasse de você por uma semana, você saberia o que fazer com esse tempo?
Se suas conquistas deixassem de ser o principal assunto, o que restaria como identidade?
Você gosta da pessoa que é quando não está sendo útil?
Essas perguntas não exigem respostas imediatas. Exigem honestidade.
Não é sobre abandonar responsabilidades.
É sobre parar de viver apenas em função delas.
Não é sobre romper com o que foi construído.
É sobre integrar partes suas que ficaram para depois.
E talvez o verdadeiro amadurecimento não esteja em conquistar mais.
Talvez esteja em finalmente se perceber.

